sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Blank!

25 Agosto 2005Um dia cor-de-rosa, outro Darth Vader.
Hoje estou Darth Vader.
Ele e todo o impérido do mal habitam meu pobre serzinho esta noite! Mal humor. Dúvidas sobre mim mesma. Dúvidas sobre meus posicionamentos. Dúvidas.
TPM? Sou desorganizada demais pra saber se é isso.
Não lembro nem em que ano casei a primeira vez. Foi em Setembro. dia 3...entre 81 e 84.
Imagina...agora lembrei: 83! O Diogo nasceu exatamente no dia em que eu fazia nove meses de casada e ninguém conseguiu descobrir se eu casei grávida ou não. Nem eu. Deu pra ver que eu já era atrapalhada aos 22 anos?
Não lembro o ano de nada. Minha vida tem ZERO ordem cronológica e juro que não me faz falta. A não ser que um dia a polícia bata na minha porta e pergunte onde eu estava na noite de 24 de agosto de 1985. "Ai! Como assim? Como é que eu vou saber? Só sei que não fui eu!"
Não lembro se trabalhei primeiro num lugar ou em outro. Não lembro quem namorei antes. Quantos anos eu tinha. Outro dia me perguntaram como foi o meu primeiro beijo e eu não consegui lembrar. Nem com quem. Lembro do primeiro beijo que eu me lembro...o primeiro que foi importante. Mas o primeiro de todos se perdeu na história.
Simplesmente não sei nada. Só sei que vivi os anos 70...depois os 80...depois os 90...e o terceiro milênio chegou...o mundo nem acabou e eu ainda estou aqui - alive and kicking - e ainda bagunço tudo o tempo todo.
"Cadê meu passaporte?" Ai! "E o histórico escolar da sua filha?" Credo! "O que você jantou ontem?" Como assim?
Lembro das pessoas. Mas não de todas.
Outro dia minha amiga me contou uma história que eu adorei, me matei de rir, achei ótima...perguntei pra ela quem era a louca. Resposta: "VOCÊ!" E eu não lembro. Não consigo saber quem era o namorado que fez aquele absurdo que ela me contou. Fiquei preocupada... Minhas amigas antigas têm histórias minhas que eu perdi. Vai ver é por isso que eu conto tudo pra todo mundo. Por isso eu escrevo. Pra não perder. Ainda bem que eu escrevo...
Mas que pessoa estranha sou eu?...O pior é que eu chego na vida das pessoas fazendo uma balbúrdia, com banda de música, fogos de artifício, fotógrafos e a bola de demolição. Derrubo tudo!
O caso mais grave de que me lembro, foi um taxi que eu peguei. Ha! Eu pegava milhares de taxis todos os dias. Ia trabalhar de taxi...vivia num taxi. Foi nessa época que fiquei mundialmente famosa como "A RAINHA DO RADIOTAXI". Isso porque todos os motoristas de taxi de uma determinada central me conheciam, e faziam o favor de perguntar para qualquer publicitário ou qualquer um que desse o endereço da agência onde eu trabalhava, se conhecia a Mercedes. (Ah! que mico!) Em caso positivo, contavam a história da minha vida baseada em trajetos.
Então peguei um taxi para ir da agência ao Aeroporto Afonso Pena. O motorista já havia me levado muitas vezes, sabia meu nome, começou a me contar a vida e dizer que construía casas. Trabalhava para ganhar mais dinheiro para construir mais casas. Vendia, alugava... e construía mais casas. A mulher dele reclamava a ausência, os filhos pequenos nunca viam o pai. Mas ele tinha que trabalhar muito enquanto era jovem.
Lá vai a Mercedes abrir o bocão!
Eu disse o que pensava: Isso não valia a pena. Quando ele estivesse já muito rico os filhos seriam grandes. A mulher já estaria chata e cansada de viver sozinha. Talvez fosse melhor diminuir o ritmo e tentar aproveitar os melhores anos da familia. Se um deles morresse no meio desse processo, ele não teria convivido o bastante e lamentaria.
Ok. Chegamos ao Aeroporto. Até breve.
Que tipo de pessoa diz uma coisa dessas?
Anos mais tarde, chamei um taxi e o motorista aquele veio me buscar. Indiquei o destino. No meio do caminho ele encostou o carro, desligou o taxímetro, virou para trás e disse: "Nós tivemos uma conversa um dia que mudou a minha vida...Preciso te agradecer."
Forte! Bola de demolição. BLAM!
Ainda bem que deu certo.
O probelma é: será justo eu passar demolindo e depois não me lembrar? Será que eu usei a grande bola no namorado aquele que esqueci completamente? Tudo bem que pela história que eu fiquei sabendo, ele era despresível, esquecível, apagável, deletável. Mas será que me lembro das pessoas pra quem eu fui importante?
Minha amiga de infância e madrasta do meu filho me contou que roubamos uma prova na 8ª série. "Não lembrava". Pior. Eu, Mercedes, fiquei debruçada na mesa do secretário da escola que babava por mim, distraindo o moço com a voz mais mole..."Uh???" ...enquanto ela e outro menino pegavam a prova.
Como assim? Não lembro nem do secretário apaixonado nem dá atitude super Erin Brokovich:
- "How did you get it?"
- "They call it boobs!"
Não lembro!
Partes da minha vida são um grande black out. Isso me deixa de mal humor. Queria lembrar tudo. Queria poder discutir com uma pessoa quando ela diz: "Eu nunca te disse isso!"
Disse! Eu sei! Mas não sei quando, nem posso te precisar como!
" Quando foi que eu te prometi isso?"
Imagina...não faz pergunta difícil...
Talvez eu viva em paz porque não posso guardar rancor. A frase já diz "GUARDAR" rancor. Impossível!
Então, pessoas...confessei um dos meus defeitos mais angustiantes. Eu esqueço! Esqueço de pagar contas. Esqueço reunião de colégio. Esqueço as compras na loja. Esqueço a chave do carro. Esqueço nome de cabeleireiro. Esqueço de comprar margarina. Esqueço o que queria falar. Esqueço de ligar pras pessoas. Esqueço aniversário. Esqueço letra de música. Esqueço pra quem liguei se demorar pra atender. Esqueço o ano nas datas. Esqueço trechos inteiros da minha história.

Bom dia!

8 comentários:

marcia perin disse...

Amei esse texto!!! Todo mundo fica impressionado com a minha memória (até o Mano já ficou.). Eu sou dessas pessoas que lembram as histórias dos outros que os outros mesmos esquecem. MAS (confissão)... sem ordem cronológica. Nem pra mim, nem pra ninguém. Sou tão perdida quanto você. Muito obrigada, Mercedes! Já me sinto melhor por ter espiado a data do meu casamento para conferir se estava comemorando no dia certo. Isso que são só 2 anos... (rsrsrs)
Beijo. Boa quinta!!!

Márcia Perin USA – 25.08.2005

Tito Iubel disse...

Esquecer as chaves não conta que qlqr mulher esquece... hahahah

Felipe Iubel 25.08.2005

Anônimo disse...

heheh..." como assim?" é típico teu. O que vale é termos memória seletiva, só vale o que foi bom e te garanto que estas histórias vc lembra direitinho.

Beijo 25.08.2005

rodrigo bat disse...

Márcia, é normal. Você só vai guardar o dia do seu casamento depois que comemorar várias vezes. Em 10 anos você não vai precisar confirmar.

Mê, este negócio de lembrar coisas distantes é meio estranho. Tem uma fantasia que sempre se mistura as lembranças. Depois de muito tempo você encontra aquela amiga daquela viagem inesquecível e vocês não concordam nem na cor do carro em que dirigiam! ! As lembranças das suas são TOTALMENTE diferentes ! Isso é uma loucura !

Beijos Rodrigo 27.08.2005

Marilia disse...

Qual será o problema das mulheres com as chaves????Nunca sei onde estão as minhas!!!hahahahaha
Amo os dias cor de rosinhas!!
Beijos!!

Marilia Lopes 27.08.2005

guta disse...

Oi!
Será que George é amigo de J. Depp?
Bjo

Guta 2.11.2005

Werner disse...

Mercedes!!! Que talento ainda não tornado público e revelado aos que amam ler e gostam de vida bem vivida e cheia de amor, romance e alegria de viver.
Lí o cap iv de "um tango para George"... A narrativa é tão perfeita que me sentia dentro da cena, dentro do romance.
Admiro-me de pessoas como vc, que tem essa capacidade de transmitir tanta fidelidade em um narrativa, que levam o leitor a entrar no que está sendo descrito, torcendo pelo amor de Livia e sentindo a sua dúvida e insgurança.
Não fico surpreendido porque sei da capacidade e imaginação suas. Vê-se no seu olhar tão expressivo, no seu jeito de ser, na sua beleza física e espiritual, que dentro tem muito a apresentar e expor. A literatura mundial pode ser muito enriquecida com o que vc pode e tem a apresentar...
Um dia ainda quero ter a felicidade de dizer: Que grande escritora!!! e é filho de um grande irmão meu!!!
Um beijão!!!


Werner 17.11.2005

AMAURY disse...

Huahuahuahua... muito legal o texto.
Márcia... para não apanhar (pobres homens) por esquecer a data do casório, casei no dia do meu aniversário!! Hehehehe...
O pior é que a idade vai avançando... e começo a temer esquecer ATÉ a data do meu aniversário!!