quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Lembranças da Infância

14 Outubro 2005Foto: em cima: Vó Naná, Mãe, Rica. Em baixo: Bia, Pat e eu bem lá em baixo. (Notem que eu já estava olhando meio longe...)

Hoje, a minha comunidade preferida do Orkut amanheceu com um novo tópico: Lembranças da infância.
Comecei a escrever lá e não conseguia mais parar. Então resolvi transferir pra cá as minhas lembranças que eu não sabia que eram tantas.
Eu lembro...
De quando morava na casa da Tia Stael quando nos mudamos do Rio para Curitiba. Lembro de roubar morango da plantação que a mãe dela cuidava com o maior carinho. De comer maçã no pé, geléia de maçã que eu ajudava a fazer, subir em árvore, tentar andar em muro (nunca consegui), cantar usando uma vassoura como microfone, queimadura de bicho cabeludo, passear com cachorro, viver de joelho ralado, andar de velocípede, morrer de medo de tirar as rodinhas da bicicleta.
Lembro de fugir de casa com o meu irmão e a minha prima, com uma mochila nas costas contendo 2 tomates e 1 pimentão, para explorar o Bacacheri. Queríamos saber o que tinha depois do muro da Rua Nicarágua, que para nós era algo como o Muro do Fim do Mundo - pelo menos do nosso. Lembro de espionar o templo Rosa Cruz. Imaginar as coisas incríveis e as seitas secretas que aconteciam ali. De investigar os pedreiros pra saber quem entrou na casa da vizinha. Lembro do Pongo - o cachorro mais feio e mais chato que jamais viveu em Curitiba, que corria atrás da minha bicicleta tentando pegar o meu pé. Lembro da Zica, a empregada maluquinha que já morreu que contava histórias de terror. Eugênia - uma negra de dois metros por dois e meio que nos amava demais, cozinhava de mais, ria alto demais, falava alemão e tocava violino, e me levava de mãos dadas para a Escola.
Lembro do cheiro de Natal, Papai Noel pelo buraco da fechadura, dormir no sofá de exaustão, histórias de lagartixas e de discos voadores nas noites quentes do Rio de Janeiro. Reunião das crianças da rua no sótão da casa em construção. Ramon - o menino estranho por quem me apaixonei aos nove anos e me deu uma pulseira com o meu nome. Almoço de domingo cheio de primos. Brincar de gato mia. Miolo de pão molhado no molho de salada roubado na cozinha. Tomar Clistin escondido (gostooooso), roubar melhoral infantil e comer feito bala. A escada da casa da minha tia. Gorro, luva e capuz pra ir pra aula...
Lembro de comer jabuticaba no pé, catar butiá e lavar na torneira do poço. Lembro de iogurte em copo de papel muito difícil de abrir. Sunday do Bob?s, praia na Montenegro (que já nem tem mais esse nome). Lembro de querer saber quem era Farme de Amoedo - nome que me encantou por anos a fio. Lembro do Chaplin e do cheiro da Visconde de Pirajá. Cheiro de pão fresco que vinha da padaria embaixo do prédio. Barulho de carros de manhã. Festa na rua na copa de 70, meninas lindas de short e biquíni dançando em cima de Kombis e eu querendo ser linda como elas. Lavar os pés na garagem para tirar a areia antes de entrar no prédio. Bolo de areia no fundilho do maiô. Pegar Tatuí no fim da tarde. Colecionar conchas. Pessoas tomando Chope, mesas nas calçadas, calor gostoso, alegria demais. Adultos que eu quis ser.
Lembro de ir ao cinema. De ser barrada para ver Help! De gritar de medo vendo Pinocchio. De chorar demais vendo Bambi. De querer ser a Noviça Rebelde. Querer voar como a Mary Poppins.
Querer ser Cissy a Emperatriz, ser Julieta, ser Karen Carpenter, ser princesinha, ser hippie, ser cantora, ser atriz, ser chacrete, ser Miss Brasil.
Lembro da família reunida em noite de tempestade quando faltava luz. Velas acesas, todos cantando, minha mãe contando histórias. Lembro de ter medo e correr para a cama da minha mãe. Aula de Francês com a minha avó. Coelhos correndo pela casa. Bombocado, baba de moça, ovos nevados, doce de abóbora, cocada, papo de anjo.
Lembro de ter medo quando morava com a Tia Stael. Lembro do galo do vizinho que cantava e me fazia chorar de terror, porque parecia um homem gritando. Lembro de medo de escuro, de elevador, de cachorro de rua, de mendigo, de fanho, de olhar para a parede no escuro, de me olhar no espelho de noite, de alma do outro mundo, de leão solto na rua, de olhar para boneca na cama, de ir pra escola de pijama, de andar pelos corredores do Sion, de me achar sozinha numa rua deserta, de anoitecer e eu não estar em casa, de escadas muito grandes, de lugares muito altos, de me equilibrar no muro, de ser feia, de parecer burra.
Lembro de dançar e cantar os dias inteiros. De sorrir pra quem passava na rua. Conversar com o açougueiro, o dono da venda, da quitanda, a moça da loja, o gari, a caixa da padaria, a filha do vizinho, os velhos na calçada, o dono da banca de jornal. Lembro de escrever poemas. Lembro de ler poemas.
Tirando alguns medos, acho que pouco mudou...
Lembro de ser feliz. E lembro como se fosse agora.

6 comentários:

Rafaela Pedro disse...

Lindo, lindo!!!
Muito bom relembrar a infância, tô aqui, pensando em tudo que fiz, e tudo que ainda quero fazer. A melhor geléia de amora que alguém já comeu na vida eu já fiz!
hehehe

Bj, Criançona!!!

Rafaela Pedro 14.10.2005

Tito disse...

e esse texto veio de uma pessoa que esquece onde estacionou o carro... quantas lembranças ein!
mas da infância nunca esquecemos mesmo... pelo menos nós que nunca deixamos de vivê-la

Tito Iubel 14.10.2005

Pat disse...

Lindo!!! Lembro de tudo isso, e de mais algumas coisas.
Só tem um problema, alagou minha sala de novo...
Beijos


Pat Zanicotti 14.10.2005

Franc disse...

Estava pensando se na Biografia não autorizada eu coloco algo da infância?? acho que fica "ternurice" demais.. eheheh
Como é bom lembrar ter a infância no coração. Franc Souza 14.10.2005

Marilia disse...

Voce só cresceu...continua a mesma...olhando para longe!!!
Beijoca!!!

Marilia Lopes 14.10. 2005

Paola disse...

Nossa... Com tantas lembranças suas, lembrei de uma que vivemos juntas...
Era Páscoa, dia chuvoso, estávamos na sua casa fazendo muitos ovos de chocolate, de todos os tipos, tamanhos e recheios.
O Bode fumando...
Eu e o Diogo correndo sem parar...
Até ele cansar e eu voltar para os ovos de páscoa!
Depois uma gastrite terrível!!!
Hoje, uma lembrança deliciosa!!!

Paola Zadra 17.10.2005